Por que certas pessoas mentem sem necessidade?

Por em 11 de março de 2011
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Por que certas pessoas contam mentiras sem necessidade?

Pessoas mentem sem necessidade, isso é um fato! Recentemente, recebi uma pergunta enviada por uma de nossas leitoras e, diante da relevância da questão, decidi abrir um artigo para debater a mentira “sem necessidade”.

Antes de prosseguir, assista o vídeo sobre o assunto:

 

Veja também o artigo:

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A questão de nossa leitora Elisabete foi assim formulada:

“Gostaria de saber um pouco sobre o PORQUÊ da mentira, que muitas vezes são ditas sem necessidade, e saber tb se existe a possibilidade de tratamento psicologico se necessario, para sabermos se foi um caso isolado, ou uma doença. Obrigada.”

Como venho indicando em outros artigos, os motivos pelos quais a mentira pode permear a nossa vida são muito variados.

Saber, ao certo, o que está ocorrendo somente é possível quando o contexto, as narrativas e as pessoas são considerados no seu conjunto.

No entanto, é possível sim lançar alguma luz sobre esse tema.

Quando não vemos a necessidade de alguém contar uma mentira para nós, analisamos a situação sob o nosso ponto de vista. Ao observamos sob a ótica do mentiroso, podemos encontrar alguns motivos, mesmo que não concordemos com eles ou que realmente não sejam reais.

Vamos analisar esse tema através de um caso ilustrativo:

A pessoa conta uma mentira pois não consegue lidar com suas próprias emoções:

João é um marido dedicado que vem enfrentando dificuldades no seu emprego. Recentemente, um chefe novo assumiu o setor e resolveu fazer algumas alterações. Entre elas, decidiu redistribuir as tarefas, cabendo a João o trabalho de arquivar os documentos já despachados.

Mentiras Desnecessárias

Anteriormente, João era responsável pela entrada e saída dos documentos que hoje arquiva e tinha dois funcionários sob a sua responsabilidade.

Muitas vezes, passa-lhe pela mente pedir demissão e procurar outro emprego. No entanto, ele já está com 45 anos e teme não conseguir emprego rapidamente e deixar a sua família desassistida, pois é o provedor.

Quando chega à casa, responde as perguntas da esposa com o mínimo de palavras e evita tocar em assuntos do trabalho. Desconfiada que algo não está indo bem, Maria, sua esposa há 23 anos, pergunta:

- Tem alguma coisa errada que você não está me contando? Por que você anda tão calado quando chega em casa?

Ao receber essa pergunta, João afirma que está tudo bem, jurando que seu silêncio se deve ao cansaço.

Pela breve narrativa da vinheta, já sabemos que João contou uma mentira para sua esposa. A percepção sobre a mentira é desenvolvida naturalmente por nós ao longo da vida. Curso sobre os sinais da mentira ou algum aprendizado específico podem nos ajudar a melhorar essa percepção, mas todos nós somos, de certo modo, especialistas em mentiras. Provavelmente foi como Maria desconfiou que seu marido havia mentido, pela alteração no padrão do seu comportamento.

Perguntamos: Havia necessidade?

Vamos analisar a situação sob o ponto de vista de Maria: Esposa há 23 anos, já enfrentou todas as dificuldades que um relacionamento duradouro pode trazer. Muitos momentos difíceis foram superados com êxito e ela tem a percepção que o amor entre os dois se solidificou com o passar dos tempos.

Diante desse cenário, Maria não vê necessidade para que João minta, pois ainda que haja problemas, ela o ajudará a superá-los, como vem fazendo ao longo dos últimos 23 anos.

Entretanto João não lida com a situação da mesma forma. Ao ser rebaixado de responsável pela expedição, para arquivista, sentiu que perdeu o orgulho que do trabalho que realiza. Começou a sentir raiva das pessoas na empresa e não queria que as pessoas em sua casa ficassem sabendo disso.

A principal causa das “mentiras sem necessidade é a incapacidade do próprio mentiroso em lidar com suas emoções.

Esse simples caso, nos ilustra a incapacidade de João para lidar com suas emoções, a principal causa da mentira ” sem necessidade”. O medo de abalar o seu conceito com a esposa e filhos pode levar alguém a contar mentiras, sem que elas tenham o objetivo principal de causar danos a alguém.

É o caso de João. Ele não deseja “enganar” ou magoar a esposa. A verdade estava estampada em sua face. No entanto, não conseguiu lidar com a idéia que perdeu seu posto no trabalho, sua chefia e passou a desempenhar tarefas para as quais se julga superqualificado.

Essa mentira não tem nenhuma relação com Maria, que sempre foi sua companheira. João é quem, ainda, não aprendeu a confiar totalmente e a sentir segurança acerca do apoio que receberá de sua esposa, não importando por qual situação passe.

Muitas mentiras, principalmente aquelas que ocorrem em nossas casas, em nossas amizades mais chegadas e até no trabalho têm como origem a incapacidade de determinada pessoa lidar com suas próprias emoções.

A dificuldade em lidar com o medo, a raiva, a tristeza e outras emoções podem levar uma pessoa a contar mentiras.

É o caso de adolescentes que não revelam aos seus pais os locais onde estiveram ou as pessoas com quem andam. Muitos deles imaginam que podem sofrer represálias se contarem a verdade.

linguagem-corporal-fale-com-filhoAinda que um pai ou mãe não aja de forma agressiva, a simples imaginação da reação pode fazer um adolescente mentir para os seus pais. Outra hipótese é que expressamos nossas emoções na face, sem termos total controle disso. Dessa forma, nossos filhos podem temer nossas próprias expressões faciais, sem mesmo que digamos uma palavra.

No caso de João, o receio de ver a sua competência profissional “arranhada” diante de sua família o motivou a mentir. Para ele, essa era uma mentira necessária, ainda que para as outras pessoas mentir não fizesse o menor sentido e até o prejudicasse!

Qual a importância em separar esse tipo de mentira dos demais?

Quando você entende que alguém mentiu para você porque não conseguiu lidar com as próprias emoções, você pode adotar uma postura mais positiva diante da mentira e ajudar a pessoa a superar sua dificuldade e passar a contar a verdade.

Isso é muito importante, pois o mais comum é sentirmos raiva da mentira e do mentiroso. Nesse novo contexto podemos substituir a raiva pela compaixão e paciência e, através da comunicação, mostrar o nosso apoio e simpatia para que aquela quebra pontual de confiança seja superada.

mentem-sem-necessidade-mentiraExistem outras causas comuns para a mentira “sem necessidade”, que analisaremos nos próximos artigos:

- a imaginação que o mentiroso pode ter da reação negativa sobre a nossa reação diante da verdade;

- as alterações do psiquismo que podem gerar ilusões (auditivas, visuais e cinestésicas) tão reais que o “mentiroso” vai jurar que viu, ouviu ou tocou;

- as alterações na organização cognitiva que podem levar a criação de falsas memórias e, consequentemente, a uma suposta “mentira”. Alguém vai jurar para você que houve determinada conversa que você sabe nunca ter ocorrido;

Utilizei a palavra mentira e mentiroso entre aspas, pois, nesses casos, devemos refletir se o que nos é contado é realmente uma mentira ou a pessoa é mentirosa.

Aproveitaremos esses outros tópicos para desenvolver mais a segunda parte de nossa questão inicial, proposta pela nossa leitora Elisabete, sobre a mentira sob o ponto de vista patológico, se é uma doença e sobre as terapias que podem ajudar nesses casos.

Acompanhe nosso artigos e até breve.

Saudações

Sergio Senna

 

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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio Fernandes Senna. Por que certas pessoas mentem sem necessidade?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < http://linguagemcorporal.net.br/por-que-certas-pessoas-mentem-sem-necessidade/> . Acesso em 23 Jul 2014.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2011). Por que certas pessoas mentem sem necessidade?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 23 Jul 2014, de http://linguagemcorporal.net.br/por-que-certas-pessoas-mentem-sem-necessidade/.
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Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
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15 Comments

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    Sirlene

    6 de maio de 2014 at 15:20

    Olá, tenho uma amiga, que ela fala coisas muito sem noção, as pessoas vê que é mentira, e isso é todos os dias, sempre ela tem que inventar algo. isso é algum tipo de doença grave?

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    Rodrigo da Costa Petersen Albuquerque

    23 de fevereiro de 2014 at 2:24

    Na verdade eu não menti , mas a minha ex namorada acha que menti sobre umas coisas que uma pessoa que esta se aproximando dela disse , como posso fazer para a minha ex namorada acreditar em min e voltar comigo. Agradeceria muito se vocês do site que alias é ótimo me ajudassem com isso .

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    Rafael

    14 de fevereiro de 2013 at 2:12

    Bom texto, infelizmente eu nao sei o que aconteceu quando eu menti por uma pessoa e menti por mim mesmo. Eu fui querer defender um amigo e minha mentira que estava escondinda foi atona. Minha namorada descobriu tudo, terminou comigo, e to aqui agora sem saber o que fazer. Vou superar isso tenho certeza, mais amigos sejamos sinceros. Eu menti pra ela que morava em um bairro de RICO, mais moro em um bairro de classe media e menti tambem que tinha um carro, mais atualmente ando de onibus. Isso pode ser curado? Ela pode me aceitar de novo? Ela nao quer me ver nem pintado de ouro branco!. Me ajude, informacoes pelo email – raph...@hotmail.com…. FIZ uma promessa pra mim mesmo, nunca mais eu minto pra ninguem, e como diz no texto la em cima, viver sem mentiras faz bem e ja sinto isso!

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    Douglas

    4 de dezembro de 2012 at 18:45

    Boa Noite.
    Acompanho o site e tenho um grande interesse em linguagem corporal no todo desde jovem, leio todos artigos e são de um teor de aprendizagem muito alto…
    Mais uma duvida, tenho um patrão que ele sofre com o distúrbio emocional da mitomania, ele não sabe e acho que nunca consultou, mais pelas coisas que ele conta e a veracidade das palavras ate a forma que ele mesmo acredita nisso, deixam claro sua doença…
    a pergunta é: Como agir diante de uma situação assim já que se darmos atenção as mentiras dele estamos incentivando o mesmo? Qual e forma correta de agir?

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      Edinaldo Oliveira

      4 de dezembro de 2012 at 20:51

      Olá Douglas,

      Apenas para deixar mais claro para os leitores que não saibam o que é “mitomania”.

      “A mitomania (ou mentira obssessivo-compulsiva) é a tendência patológica mais ou menos voluntária e consciente para a mentira. Normalmente, as mentiras dos mitomaníacos estão relacionadas a assuntos específicos, porém podem ser ampliadas e atingir outros assuntos em casos considerados mais graves . Uma menina cujo pai é violento, por exemplo, pode começar a inventar para as colegas como sua relação com o pai é boa e divertida, contando sobre passeios e conversas que nunca existiram. Justamente pelos mitômanos não possuírem consciência plena de suas palavras, os mesmos acabam por iludir os outros em histórias de fins únicos e práticos, com o intuito de suprirem aquilo de que falta em suas vidas. É considerada uma doença grave, necessitando o portador dela de grande atenção por parte dos amigos e familiares.” – Wikipedia

      Será realmente que ele sofre desta patologia? Não sei como você chegou nesta conclusão…

      Entretanto, considerando pessoas com esta patologia, perceber a mentira será cada vez mais complicado, pois o portador desta patologia, cada vez mais, acredita em suas fantasias (que servem para suprir suas próprias limitações).

      Recomendo a leitura do artigo “Falsas memórias são mentiras? ” :: http://linguagemcorporal.net.br/lie-to-me/memoria-falsa/

      Abraço,

      Edinaldo Oliveira

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      Rafael

      14 de fevereiro de 2013 at 2:15

      Edinaldo, pensei bem sobre o mitomania, isso tem tratamento?

  5. avatar

    SANDRA PINTOS

    20 de setembro de 2012 at 22:12

    sou estudante de psicologia e particularmente acretido que nenhuma mentira e saudavel,pois diminui o carater do ser humano ……………e tambem faz com ele se torne uma pessoa que ninguem confia

    • avatar

      Edinaldo Oliveira

      21 de setembro de 2012 at 17:12

      Olá Sandra,

      Primeiramente obrigado pela visita!

      Acredito que a questão da mentira seja um pouco mais complexa, visto que diversos fatores podem motivá-las, como por exemplo:

      - Insegurança;
      - Incapacidade de lidar com suas próprias limitações;
      - Desejar amenizar algum tipo de informação que possa vir a prejudicar alguma situação já complicada;
      - Tirar proveito;
      - Prejudicar alguém.

      Algumas destas situações podem ser tomadas como reprováveis, talvez outras não, tudo depende do contexto e dos envolvidos.

      Indicaria que você lesse o artigo abaixo, e assistisse os vídeos contidos nele, vai complementar bastante este artigo:

      http://linguagemcorporal.net.br/a-mentira/honestidade-radical/

      Abraço,

      Edinaldo Oliveira

  6. avatar

    Rogério Menezes Barbosa

    18 de junho de 2012 at 13:41

    Excelente artigo! Não há como encontrar artigo que não seja ótimo nesse site.
    Também fico intrigado com isso, com a relação do que leva a pessoa a mentir de uma maneira desnecessária, como descrita no exemplo acima.
    Pois diretamente, tenho que lidar com isso também, normalmente tenho que tentar descobrir omissões em anamneses hospitalares, porque é o que mais acontece. Um sim no lugar de um não ou um não no lugar de um sim.
    Gostaria de saber se já foi escrito o artigo de quando a mentira é considerada uma patologia, pois procurei e não o encontrei.

    Obrigado! Att.

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      Sergio Senna

      18 de junho de 2012 at 16:09

      Prezado Rogério, obrigado. Assim como a série sobre a Programação Neurolinguística, estou elaborando um artigo sobre patologia.

      Um abraço
      Sergio Senna

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      Rogério Menezes Barbosa

      19 de junho de 2012 at 1:09

      Obrigado, Dr. Sergio Senna.
      Vou aguardar os artigos. E a nova interface do site ficou muito boa! Parabéns.

  7. avatar

    Victhor Asckermann

    13 de abril de 2012 at 22:45

    Ótimo artigo, e é lamentável que algumas pessoas sejam tão dependentes da mentira. Parabéns pelo artigo!

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      Edinaldo Oliveira

      16 de abril de 2012 at 18:24

      Victhor,

      Acho muito interessante esse questionamento: será que alguém mente, e ainda, sente raiva de alguém ou de algo por limitações próprias?

      As vezes nossas atitudes despertam raiva no próximo e ficamos nos questionando o porquê daquilo, quando, se prestarmos atenção, o problema não está em nossa atitude, mas sim, trata-se de uma dificuldade do próximo em lidar com alguns sentimentos.

      Abraço,

      Edinaldo

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      Sergio Senna Pires

      18 de abril de 2012 at 19:21

      Prezado Victhor, obrigado pelo incentivo.

      Prossiga acompanhando nossas matérias e participando de nossos debates.

      Abraço
      Sergio Senna

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    Edinaldo Oliveira

    27 de fevereiro de 2012 at 10:37

    Excelente artigo…merece realmente uma continuação.

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