Educação e linguagem corporal

Por em 11 de abril de 2011
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Formas de interagir pela linguagem corporal no contexto escolar

Iniciarei uma série de artigos sobre a linguagem corporal na educação. Em meus estudos sobre crenças e valores, descobri o quão importante é observarmos a linguagem corporal e expressões faciais de nossos alunos.

Nesse artigo inicial, tratarei de um tema nada introdutório que é a relação individual do professor com os seus alunos. Para delimitarmos o tema, o que temos a seguir são algumas observações que se aplicam a alunos crianças.

A aplicação dessas técnicas com alunos adultos depende de alguma adaptação.

Todos sabemos dos problemas que a educação nacional passa. Escolas públicas ou privadas, indistintamente, carecem de condições para prover um ambiente diversificado e eficaz para a aprendizagem. Por outro lado, nem sempre os próprios alunos e sua família colaboram positivamente nesse processo.

Diante disso é que se torna tão importante que o professor se interesse pela interpretação da linguagem corporal.

Ao longo dos meus quase 30 anos no mundo do trabalho, fui aluno em diversas escolas e pude ser professor em umas quantas outras.

Como aluno, tenho que ser sincero, senti pouco interesse de meus professores por mim. Como não apresentava problemas de disciplina ou de aprendizagem naquilo que me era exigido, também não recebia feedbacks e qualquer outro incentivo.

A partir daí, desde cedo, desenvolvi uma certa motivação “intrínseca” para aprender, algo meio egoísta, que dependia apenas de mim mesmo… Não vi muita mudança nesse cenário desde que tinha 7 anos até o nível mais alto de minha escolaridade.

Assim como ocorreu comigo do 1º ano do Ensino Fundamental ao doutorado, creio que muitas pessoas passam por essa experiência. Como não apresentam problemas, são meio que esquecidos…. Nem mesmo o elevado desempenho escolar consegue competir com a desordem, a indisciplina ou com os problemas de aprendizagem. Parece que deixamos de prestar atenção àqueles que se esforçam para se destacarem de forma positiva.

Nesse complexo cenário, fica uma pergunta: será que a linguagem corporal pode ajudar a comunicar a atenção e o apreço que um professor tem por seus alunos?

A resposta é afirmativa e será o nosso tema desse artigo.

A atenção e gentileza na linguagem corporal

Uma das formas mais eficazes de comunicar atenção é inclinar-se em direção ao aluno ou abaixar-se para falar com ele. Durante esse movimento, são as expressões faciais e a forma com que se adentra o espaço pessoal do aluno que contam para a interpretação positiva da linguagem corporal.

Na figura a seguir, vemos uma professora com a linguagem corporal comunicando atenção.

educacao-linguagem-corporal

Podemos observar sua inclinação em direção ao aluno, o seu interesse que é comunicado pelo levantamento da pálpebra superior e o sorriso zigomático.

No entanto, nota-se também um certo exagero ou excesso de intensidade nas expressões, o que pode ter sido causado pela pose para a foto.

Note que ela se posiciona a cerca de 45 centímetros do aluno. A pesquisa mostra que nos sentimos de diferentes maneira quanto à proximidade física das pessoas em relação a nós.

A figura a seguir ilustra essas distâncias.

educacao-densidade-humana-1

Como é possível notar, devemos ser cautelosos quando nos colocamos a menos de 45 a 30 centímetros de alguém. Para adentrar esse espaço é necessário ter a “autorização” da pessoa, ainda que isso seja realizado sem palavras.

Quando lidamos de forma apropriada com essas distâncias, com nossos gestos e expressões faciais, a interpretação que os alunos relatam é de que o professor está sendo gentil e atencioso.

No entanto, é necessário pontuar que a linguagem corporal não é uma “magica”. Podemos fazer tudo certo e os efeitos não serem os esperados.

Na figura abaixo, vemos um professor acertando na medida, mas falta a resposta positiva do aluno.

educacao-linguagem-corporal-1

Inclinação, atenção, distância, tudo parece correto. Nesses caso, há que analisar todo o contexto, incluindo as histórias dos encontros anteriores ao evento ilustrado.

Expressões faciais – surpresa

Além da gestualidade, as expressões faciais são de extrema importância. As figuras abaixo demonstram como a expressão mostrada em nossas pálpebras pode afetar o que dizemos ou até mesmo o conjunto de nossa comunicação.

educacao-palpebra-surpresa

Essa expressão comunica surpresa. É comum quando um aluno faz alguma pergunta inesperada ou ocorre alguma situação que foge da rotina na sala. Observe que a pálpebra superior está levantada, mas não apresenta uma grande tensão. Esse movimento é produzido pelo músculo levantador da pálpebra superior e ocorre, em intensidades diferentes nas expressões de surpresa ou medo.

A pálpebra inferior está relaxada e os olhos estão com a expressão de “abertos”. A parte externa da sombrancelha está levantada pela ação do músculo frontal. No geral vemos uma expressão de surpresa discreta.

Expressões faciais – medo

Na figura abaixo temos o protótipo dos olhos do medo. Quando um professor é desafiado em sala de aula, por exemplo, espera-se esse tipo de expressão em várias intensidades. A raiva também pode aparecer.

educacao-palpebra-medo

Observe a tensão na pálpebra inferior e nas sombrancelhas. Os olhos continuam com a expressão de abertos, mas de uma forma bem diferente da figura anterior.

Os exemplos acima são meramente exemplificativos de uma série de expressões que modificam nossa comunicação.

Dessa forma, em nada adianta tentar passar uma idéia de atenção ao aluno, se as suas expressões faciais comunicarem outra mensagem.

Com a intensificação da violência nas escolas, muitas pessoas têm perguntado sobre as expressões faciais na sala de aula. Esses são alguns exemplos do que podemos demonstrar e também ver em nossos alunos.

No próximo artigo da série, seguiremos tratando da interação aproximada entre professores e alunos.

 

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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio Fernandes Senna. Educação e linguagem corporal. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < http://linguagemcorporal.net.br/educacao-e-linguagem-corporal/> . Acesso em 3 Sep 2014.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2011). Educação e linguagem corporal. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 3 Sep 2014, de http://linguagemcorporal.net.br/educacao-e-linguagem-corporal/.
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Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
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2 Comments

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    Sergio Senna Pires

    14 de abril de 2011 at 10:33

    Pois é Tais, entendo perfeitamente sua observação. É por isso que se torna tão importante para os professores entender essa dimensão da comunicação.

    De fato, todos temos alguma percepção intuitiva do tema. Como vivemos em interação com as demais pessoas, é a própria vida quem nos ensina um bocado de coisas sobre isso. No entanto, se alguém quer ter proficiência em interpretar esses sinais, terá que aprendê-los.

    Em nosso país e na Língua Portuguesa existe muito pouco conhecimento cientificamente embasado e disponibilizado na forma de livros. O que se encontra por aí são livros de auto-ajuda, que não têm o compromisso de difundir conhecimento científico. Não é uma crítica a esse tipo de literatura, somente uma observação sobre o seu conteúdo.

    Tudo isso, então, dificulta a aprendizagem das pessoas e o professor é um técnico sob vários pontos de vista. É um técnico no tema que ensina e também o é (ou deveria ser) nas técnicas sobre como ensinar e sobre como se comunicar para essa finalidade. É aí que entra a comunicação não verbal.

    Continue participando de nossos artigos, que são, de fato, uma construção coletiva.
    Obrigado pela sua participação.

  2. avatar

    Taís

    13 de abril de 2011 at 9:53

    Quando eu era mais nova que os professores vinham ver alguma coisa no meu caderno ou vinham tirar alguma dúvida sempre ficava incomodada porque eles chegavam perto demais, mas tinha alguns professores que isso era mais forte, não sei se pela aparência deles ou se era apenas a invasão que me incomodava.

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